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segunda-feira, 15 de abril de 2019

16 de abril. Dia Mundial da Voz

Texto de Amanda Pontual

Postado originalmente em www.acordesrecife.com
Abril, 2016
Texto revisado em abril, 2019

A data 16 de abril é comemorada como o Dia Mundial da Voz. A iniciativa começou no Brasil, em 1999, realizada por fonoaudiólogos, professores de canto, médicos otorrinolaringologistas e especialistas em problemas da voz, pertencentes a Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz, presidida pelo Dr Nedio Steffen. Inicialmente chamado de Dia Nacional da Voz, a data serviria para alertar para os cuidados com a voz, patologias e tratamentos. Outros países, como Portugal e Argentina, seguiram o exemplo do Brasil, transformando a data em Dia Internacional da Voz. 
No ano de 2002, os Estados Unidos, por meio da Academia Americana de Otorrinolaringologia - Cirurgia de Cabeça e Pescoço (American Academy of Otolaryngology - Head and Neck Surgery), reconheceu oficialmente a data, que passou a ser chamada de Dia Mundial da Voz.

Para comemorar o Dia Mundial da Voz, preparamos um post recheado de informações sobre fisiologia da Voz e cuidados com a mesma.

Fisiologia Vocal

Chamamos de Aparelho Fonador ao sistema responsável pela produção, projeção e articulação dos sons falados e/ou cantados. O aparelho fonador é constituído por dois outros aparelhos: o aparelho respiratório e o aparelho digestivo.

Dentre os componentes do aparelho digestivo estão lábios, língua, dentes, palato e faringe. São responsáveis pela articulação, projeção, escoamento e ressonância dos sons produzidos.

Os componentes do aparelho respiratório são cavidades nasais, laringe, faringe, músculos abdominais e intercostais, pregas vocais, pulmões, diafragma e traqueia. Estes são responsáveis pela produção, ressonância, vibração e apoio do som.

Todos estes componentes possuem dupla função, uma biológica e uma fonatória. Exemplo: os pulmões tem função biológica de promover a troca gasosa que nos mantém vivos, enquanto na função fonatória, é o responsável pela produção da coluna de ar que irá fazer vibrar as pregas vocais, permitindo assim a produção do som.

"A fonação depende fundamentalmente da laringe, órgão situado na região mediana do pescoço e que se comunica superiormente com a faringe e inferiormente com a traqueia." TABITH JR, 1989.

Pregas Vocais

Antes chamadas de cordas vocais, as pregas vocais constituem-se em um tecido musculoso formado de duas pregas em formato de V e situado na laringe. A função das pregas é fonatória. O som que emitimos na fala ou no canto se origina da vibração sofrida pelas pregas durante a passagem do ar. No momento da inspiração, as pregas permanecem separadas, havendo a junção de ambas durante a emissão sonora.

As pregas vocais possuem cerca de 17 a 24 mm nos homens e 13 a 17 mm nas mulheres. "No ato da fonação as pregas vocais são aproximadas por ação dos músculos responsáveis por sua adução, os quais, comandados pelo cérebro, efetuam o fechamento do espaço que existe entre elas." BAÊ e PACHECO, 2006.

Isso significa que, durante a respiração, as pregas vocais permanecem abertas, enquanto na fonação, elas são aproximadas

O mal uso das pregas vocais pode acarretar fendas, que ocorrem quando há falha na adução das pregas vocais, ou nódulos. Os sinais de alerta são rouquidão por mais de 15 dias, falha na voz, pigarro, dor ou ardência, entre outros. Ao aparecerem estes sintomas, um otorrinolaringologista deve ser consultado. Os tratamentos podem ir da fonoterapia até a cirurgia, em casos extremos.

Atitudes que prejudicam a voz:

- Fumo: O cigarro é um dos principais vilões das doenças vocais. A fumaça provoca o ressecamento das pregas vocais, irritação da laringe e acúmulo de secreção nos pulmões e pregas vocais.

- Grito: Tanto o grito como o sussurro são atitudes pouco recomendáveis para a voz, pois causam um esforço desnecessário e agridem as pregas vocais.

- Competição sonora: Em ambientes muito barulhentos, o indivíduo acaba competindo com os outros sons para se fazer entender, o que causa um desgaste nas pregas vocais.

- Pigarrear: O ato de pigarrear é desaconselhável pois causa um atrito nas pregas vocais que podem causar lesões.

- Ar condicionado: Permanecer muito tempo exposto ao ar condicionado pode provocar o ressecamento das pregas vocais.


Cuidados com a Voz:

- Procure manter sempre o corpo hidratado. Deve-se beber no mínimo 8 copos de água por dia. Durante atividades que utilizem mais a voz, tais como aula de canto e palestras, deve-se beber pequenas quantidades de água durante vários períodos da atividade. Procurar beber líquidos em temperatura ambiente para evitar o choque térmico.

- Antes da atividade vocal, evite consumir alimentos derivados do leite e chocolates, pois os mesmos aumentam o nível de secreção nas pregas vocais.

- Evitar anestesiar a garganta por meio de bebidas alcoólicas ou pastilhas refrescantes antes de qualquer atividade vocal. Ao anestesiarmos o trato vocal, podemos cometer excessos sem que percebamos, o que pode provocar lesões nas pregas vocais.

- Evitar a ingestão de líquidos ou alimentos gelados ou quentes antes de qualquer atividade vocal para não causar choque térmico.

- Procurar ingerir alimentos ricos em fibra como, por exemplo, a maçã. Estes alimentos são importantes para a limpeza do trato vocal.

REFERÊNCIAS

BAÊ, Tutti e PACHECO, Cláudia. CANTO: Equilibrio entre corpo e som. Princípios da fisiologia vocal. São Paulo: Irmãos Vitale, 2006.

TABITH JR, Alfredo. FONIATRIA. São Paulo: Cortez editora, 1989.




http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/sistema-respiratorio.jpg

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDSbtLEJymw7PWpav_cGdMTIZBGVN001ei3gDW8ciY60SUtYeUECrrsw1HrtjknDOvW2vK4DF5iFQeysw-DSXQ_cQupofjyq8Z7oP4vIPgcTiQmVCdeyv2eY_gmqnh4tRrU7BOOGZy0V0/s1600/Picture1.gif

http://www.centraldafonoaudiologia.com.br/bd_imagens/291201412550.jpg

http://www.minhavida.com.br/alimentacao/materias/4758-dia-mundial-da-voz-serve-como-sinal-de-alerta

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band: 50 anos depois


Sons de público. Uma banda começa a tocar. É a banda do sargento Pimenta, liderada por Billy Shears. Surge então um dos maiores álbuns do Fab Four, envolto em um mistério e com uma teoria da conspiração que se tornou uma das maiores (senão a maior) da história do Rock. Paul McCartney estava morto e foi substituído por um sósia, chamado Billy Shears.



Polêmicas e teorias malucas à parte, Sgt. Pepper's é um prelúdio da era hippie, que iria entrar em seu auge 2 anos depois, no Festival de Woodstock em 1969. Já na capa, o álbum traz uma série de referências da cultura Pop, com colagens de fotos de celebridades como Karl Marx, Marilyn Monroe, Fred Astaire, Marlon Brando, Oscar Wilde, entre outros. Rico em seu colorido e trazendo à frente a banda em duas representações: a clássica banda Beatles, com seus cabelos "a lá" Romeu e terninhos, e a Banda do Sgt. Pimenta ao centro.

Celebridades na capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band


Lançado em 1º de Junho de 1967, é o 8º álbum de estúdio dos Beatles, já em uma época em que o grupo abdicou das apresentações ao vivo para se dedicar aos álbuns, que se tornaram obras de arte. O "sumiço" dos palcos, aliado a um acidente sofrido por Paul foram os motes para a criação do mito "Paul is Dead". Na verdade, Billy Shears foi um pseudônimo usado por Ringo Starr, que logo após ser anunciado na música de abertura, entoa a música With A Little Help From My Friends. A canção, que teria uma famosa versão na voz do saudoso Joe Cocker no Festival de Woodstock, traz uma brincadeira sobre Ringo ser "desafinado", mas que conseguia cantar com a ajuda de seus amigos. A música originalmente se chamaria Bad Finger Boogie, e foi escrita por Paul após este e John Lennon conversarem sobre a necessidade de se ter uma canção para Ringo.

Joe Cocker canta With A Little Help From My Friends em Woodstock


O álbum como todo demorou 105 horas para ser gravado, um marco para a época, além de 5 meses para ser terminado. Lançado no que foi chamado de "Verão do Amor", em que a cultura Hippie começava a se espalhar pelo mundo, o álbum é cheio de referências ao movimento, bem como a temas cotidianos de sociabilidade, autoaperfeiçoamento e questões urbanas, como relata Turner (2009).

"O espírito de 1967 tomou o álbum de modo significativo. Foi fruto da crença de que os limites para a imaginação eram impostos culturalmente e, assim sendo, deveriam ser desafiados. Tentava-se de tudo o que parecesse tecnicamente possível: do frenesi orquestral de "A Day In The Life" até a inclusão de notas de frequência tão altas que só um cachorro poderia perceber." Turner, 2009


Erroneamente Sgt. Pepper's é tido com álbum conceitual. Na verdade, não há elementos que o caracterizem desta forma, sendo as únicas canções que ligadas a faixa título e "With A Little Help...". Porém o álbum traz inovações, como um encarte com letras e a própria arte de capa.

A capa foi de autoria de Peter Blake, juntamente com o diretor de arte Robert Fraser. Custou na época 2800 libras e consistia em um cenário de flores e manequins de Madame Tusseuds, com recortes em tamanho natural dos ídolos dos 4 Beatles. Na teoria "Paul Is Dead", acredita-se que a capa apresenta um funeral (de Paul), no qual pode-se ver em um dos arranjos de flores o baixo Hoffner com 3 cordas e onde se lê Beatles deveria se ler "Be At Leso". Leso é uma ilha grega na qual Paul estaria enterrado.

Representação do Baixo de Paul

O que os fãs da teoria de que Paul está morto chamam de "Be At Leso"


Polêmicas e conspirações à parte, Sgt.Pepper's Lonely Hearts Club Band é um dos álbuns mais importantes da história do Rock e merece nossa reverência nestes 50 anos de seu lançamento. Vale muito a pena entrar no mundo envolto em psicodelia e elementos extraídos da música hindu, que George Harrisson tão bem representa na música "Within You Without You".

A viagem é um prelúdio aos seguintes "Magical Mystery Tour e Yellow Submarine. E rendeu homenagens como o longa metragem Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band, produzido por Robert Stigwood e estrelado por Peter Frampton e os irmãos Bee Gees em 1978.

Bee Gees e Peter Frampton no filme inspirado no álbum dos Beatles
Parceiro: Casa da Musika

Referências:

THOMAS, Gareth. Beatles: a história ilustrada. Ed. Escala, São Paulo, 2010.

TURNER, Steve. The Beatles: a história por trás de todas as canções. Tradução: Alyne Azuma. Cosac Naify. São Paulo, 2009. 4ª reimpressão 2014.

http://www.guitarworld.com/sites/default/files/public/sgt-pepper_1.jpg

http://g1.globo.com/musica/noticia/sgt-peppers-album-dos-beatles-que-marcou-a-historia-da-musica-completa-50-anos.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sgt._Pepper%27s_Lonely_Hearts_Club_Band

http://baudoedubillyshears-edu.blogspot.com.br/2008/11/eu-fui-o-primeiro-e-nico-billy-shears.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Sgt._Pepper%27s_Lonely_Hearts_Club_Band_(film)

https://ogimg.infoglobo.com.br/in/18376160-8dd-728/FT1086A/2011-387880904-2011050272914.jpg_20110502.jpg

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http://images.mentalfloss.com/sites/default/files/pepperhed.jpg?resize=1100x740

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Villa-Lobos e o Violão



O ano era 1903. Santos Dumont acabara de chegar de sua vitoriosa empreitada em Paris. Dentre as muitas homenagens que recebeu, uma se destacou em seu coração. Um grupo de "chorões" toca uma música de Eduardo Neves:

"A Europa curvou-se ante o Brasil
E clamou parabéns em meigo tom
Brilhou lá no céu mais uma estrela
Apareceu - Santos Dumont"

Dentre o grupo, encontrava-se um rapaz magrinho que tocava a ocarina. Mas que já era mestre ao violão, e com ele, ajudava no sustento da família, dando lições a cinco mil-réis por mês. O jovem era ninguém menos do que Heitor Villa-Lobos, ou simplesmente Villa. Já não era mais o "fujão" Tuhu. Trazia nos ombros a responsabilidade de ser o "homem da casa" após a morte de seu pai. Já não havia em sua casa a ilusão de que iria tornar-se médico. Deveria ser músico. Melhor guiar-se pelo coração seresteiro do que torna-se um mau médico, como diria a sua amada tia Fifina.




Villa-Lobos passou a integrar o grupo de choro Cavaquinho de Ouro, que tocava músicas de Ernesto Nazareth, Joaquim Callado, dentre outros. Convivia com Quincas Laranjeira, João Pernambuco, Pixinguinha, Donga, Catullo da Paixão Cearense, dentre outros. Mas não se resumiu ao choro. Estudou a técnica dos grandes nomes do violão europeu, como Tárrega, Carcassi e Sor. Em seu famoso encontro com Andrés Segóvia, disse-lhe que "não era violonista, mas sabia toda a técnica de Carulli, Sor, Aguado, Carcassi, etc" (TABORDA, 2011)

Joaquim Callado


As primeiras composições de Villa-Lobos para o violão datam de 1899, com a "Mazurka em Ré" e "Panqueca". Infelizmente estas obras foram extraviadas. Mas o velho Villa ainda iria nos deixar grandes obras para o instrumento, compondo até 1950 para o mesmo. Mesmo tendo estudado técnicas europeias, a música de Villa traria sempre o caráter nacionalista. Entre os anos de 1908-12 ele escreve a "Suíte Popular Brasileira", composta por 5 peças (Mazurca-choro, Schottisch-choro, Valsa-choro, Gavota-choro e Chorinho).

Choros, Estudos e Prelúdios

Em 1920, Villa-Lobos compõe o "Choro nº 1", em homenagem ao mestre Ernesto Nazareth. Esta obra é o "abre-alas" para uma série de 17 choros, que refletem o virtuosismo deste e a habilidade em juntar a técnica e a expressão popular em uma única obra. Em suas próprias palavras, Villa-Lobos afirma que os Choros são construídos "segundo uma forma técnica especial, baseada nas manifestações sonoras dos hábitos e costumes dos nativos brasileiros, assim como nas impressões psicológicas que trazem certos tipos populares, extremamente marcantes e originais" (TABORDA, 2011).
Ernesto Nazareth


Trecho da partitura do Choro nº1



Entre os anos de 1924-29, mais uma vez um mestre é alvo das homenagens de Villa. A série de 12 peças intituladas "Estudos" é composta e dedicada a Andrés Segóvia. Até os tempos atuais, tanto os "Choros" como os "Estudos" são repertório obrigatório aos violonistas que ambicionam o profissionalismo e o aprimoramento técnico e virtuosístico.

Andrés Segóvia


A série "Prelúdios" conta com 5 peças dedicadas a sua segunda esposa Arminda, a qual ele chamava carinhosamente de Mindinha. Foram escritas na década de 40.

Concerto Para Violão e Orquestra

Por encomenda de Segóvia, Villa-Lobos compôs uma "Fantasia Concertante" para violão e orquestra. Villa prontamente atendeu seu pedido, que a princípio não contava com a tradicional cadenza entre o segundo e terceiro movimento. Esta seria sua última composição para o violão. o ano era 1951, a saúde de Villa-Lobos começava a abandoná-lo. 8 anos depois, viria a falecer.
Segóvia e Villa-Lobos

Nesta obra, Villa adiciona uma autocitação no segundo movimento, extraído do tema principal das "Bachianas Brasileiras nº 4". Para o primeiro movimento, Villa se inspirou no Nordeste brasileiro. Aliás, como veremos nos próximos capítulos, Villa-Lobos era um grande viajante e pesquisador da música brasileira. E fazia questão de imprimir toda essa "brasilidade" em suas composições. E assim como a cultura de nosso país é abrangente, diversa é a obra de Villa.


Porém, Villa-Lobos resolveu escrever a cadenza e dar de presente a Segóvia, tornando a Fantasia no "Concerto para Violão e Orquestra". Uma obra que encerra com chave de ouro a contribuição do velho Villa ao seu amado instrumento violão.

Em breve voltaremos com mais um capítulo da épica saga de Heitor Villa-Lobos pelo mundo da música. Leiam também a primeira e segunda parte desta jornada.



Referências:

BUENO, Roberto. Pedagogia da Música - Vol. 1. Keybord Editora Musical LTDA. Jundiaí, 2011

SILVA, Francisco Pereira da. Villa-Lobos. Ed. Três. São Paulo, 1974]

TABORDA, Márcia. Violão e Identidade Nacional. Ed, Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2011

Grandes Compositores da Música Clássica: Villa-Lobos. Abril Coleções. São Paulo, 2009

Antônio Carlos Gomes, José Pablo Moncayo, Heitor Villa-Lobos, Alberto Ginastera: Royal Philharmonic Orchestra. Mediasat Group S.A.: texto e documentação Eduardo Rincón: tradução Eliana Rocha. Publifolha. São Paulo 2005 (Coleção Folha de Música Clássica)

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segunda-feira, 13 de março de 2017

Heitor Villa-Lobos: Da Infância à Juventude


O som ecoa pelas frestas da porta do quarto. O pequeno Tuhu se sente atraído pela música que toca na sala de sua casa. Desce a escada e esconde-se atrás de um móvel para ouvir, até que é avistado pelo seu pai, que lhe dá uma bronca e o manda subir. A mãe do jovem chega para colocá-lo em sua cama e ouve a indagação: "Por que não posso ouvir aquelas músicas? Não é injustiça?". Logo sua mãe acalmava-o dizendo: "As crianças devem dormir cedo para acordar cedo e aproveitar bem o dia, como os passarinhos". "Os passarinhos cantadores?", e assim adormecia o menino.



Foi numa destas escapadelas que o pequeno Tuhu, ouviu pela primeira vez a obra de Bach. E como ficar imune a esta música celestial? Desceu alguns degraus da escada e pôs-se a escutar, adormecendo ali mesmo. Sua mãe o coloca de volta em sua cama e ele desperta com uma pergunta:


- Mãe, que música era aquela que parecia vir do céu? 
- Bach.
- Quem é Bach?
- Foi um grande compositor que viveu há muitos anos.
- Já morreu? Está no céu?
- Está.
- Pois um dia, no céu da música, vou me encontrar com Bach. (Silva, 1974)
Vendo que não havia outro jeito, senão incentivar seu filho a estudar música, seu pai então começa a dar-lhe aulas de violoncelo. Contando com apenas 4 anos, Raul manda adaptar um espigão em uma viola, criando assim um cello especial ao pequeno Villa.

Aos 6 anos, um evento especial na vida do pequeno Heitor. Sua família passou uma temporada em Bicas e em Cataguases, no interior de Minas, fugindo de uma possível perseguição política devido a oposição de Raul Villa-Lobos à Floriano Peixoto. Lá, Tuhu conheceu o som da viola sertaneja, das rabecas e sanfonas.


Apaixonado por aquela moda, o menino fugia constantemente de casa para estar entre os violeiros nas rodas regadas a cachaça, o que tirava o sossego de sua mãe. Ele perguntava aos músicos com quem haviam estudado, e ficava encantado ao saber que aprendiam de ouvido. Também se encantou com os sons da natureza, das vacas a mugir e dos pássaros a cantar. Essa experiência serviria anos depois para as buscas e composições do maestro Villa-Lobos.

Aos 8 anos, escondido do pai, resolve experimentar o clarinete deste. Ao ouvir os sons estridentes, o pai chega ao pé de Tuhu e com a cara amarrada lhe dá a ordem: "Pega a clarineta já! E logo mais tens que me tocar toda a escala, ouviste?". (SILVA, 1974, p. 45). Ao chegar mais tarde, o menino toca para ele as escalas maiores e menores no instrumento. O pai sorri por dentro de sua aparente dureza, pois havia em sua linhagem um filho músico.

O professor Raul era exigente. Ao surgir qualquer som, seja de um bonde a passar, um apito ou um arrastar de cadeira, perguntava ao jovem Heitor: "Qual o tom?" e este lhe respondia sempre corretamente 

Aos 11 anos, uma tragédia. Seu pai Raul falece, com apenas 39 anos, de varíola. Perde um pai e um professor. A música deveria ficar em segundo plano. Sua mãe desejava que ele fosse médico. Mas não havia mais volta. Heitor nascera para ser músico. Aos 12 anos começa a compor. E, para desespero de sua mãe, fugia às noites para meter-se em rodas de chorões.
Villa-Lobos aos 18 anos

O clarinete e o violoncelo eram uma alegria para Heitor. Mas era o violão a sua verdadeira paixão. E nele, Villa-Lobos iria compor algumas de suas obras mais notáveis.

Continuem a jornada pela vida de Villa~Lobos nos próximos artigos.
 Aproveitem e leiam o primeiro capítulo da série


Referências:

BUENO, Roberto. Pedagogia da Música - Vol. 1. Keybord Editora Musical LTDA. Jundiaí, 2011

SILVA, Francisco Pereira da. Villa-Lobos. Ed. Três. São Paulo, 1974

Grandes Compositores da Música Clássica: Villa-Lobos. Abril Coleções. São Paulo, 2009

Antônio Carlos Gomes, José Pablo Moncayo, Heitor Villa-Lobos, Alberto Ginastera: Royal Philharmonic Orchestra. Mediasat Group S.A.: texto e documentação Eduardo Rincón: tradução Eliana Rocha. Publifolha. São Paulo 2005 (Coleção Folha de Música Clássica)

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http://www.happyfamilyinlove.com/2016/05/20-compositores-e-musicos-da-musica.html

segunda-feira, 6 de março de 2017

Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão


Em comemoração aos 130 anos do Mestre Heitor Villa-Lobos, este blog inicia uma série de artigos em homenagem a este que é provavelmente o maior nome da música brasileira.

No dia 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, nascia o pequeno Tuhu (seu apelido de criança). Filho de Raul Villa-Lobos, professor e funcionário da Biblioteca Nacional, e de Noêmia Monteiro Villa-Lobos, filha do músico Santos Monteiro, notável autor de quadrilhas. Seu pai também foi um grande incentivador da música. Fundou a Sociedade de Concertos Sinfônicos do Rio de Janeiro, a primeira desta cidade, e com eles realizava saraus 2 vezes por semana em sua casa.

Villa-Lobos teve pressa em nascer. O pequeno veio ao mundo com 7 meses de gestação. Mas assim que começou a dar seus primeiros passos, tornou-se um saudável menino, astuto e travesso, que sempre achava uma forma de se esgueirar pelas escadas à noite para ouvir os saraus de seu pai. E nestas audições, ouviu e se apaixonou pela música de Bach, jurando que quando crescesse, faria música tão bela como a deste.

"O amor de Villa-Lobos, desde cedo, pela música, vem do avô materno – o autor de Quadrilha das moças – e principalmente vem do pai. Nas noites de música que o professor Raul promovia em sua casa, Villa-Lobos conseguia escapulir do leito, sem ser notado pela mãe, e aproximava-se da sala onde o pai e os amigos tocavam. "(SILVA, 1974, p.41)


Falaremos um pouco mais do pequeno Villa-Lobos nos próximos artigos.

Neste ambiente musical intenso, Villa-Lobos teve seus primeiros professores e deu seus primeiros passos na música. Foi músico orquestral e popular, compositor, pesquisador aos moldes de Bartók (viajando pelas diversas regiões do país e catalogando formas e estilos musicais) e teve um dos seus maiores destaques como educador musical. Seu método de Canto Orfeônico foi difundido por décadas nas salas de aula do país.

Também foi um dos principais personagens da Semana de Arte Moderna de 1922. Nacionalista do fio do cabelo até a unha do pé, podemos dizer que Villa-Lobos foi o primeiro compositor brasileiro da chamada música erudita a se desligar completamente das escolas europeias e criar um estilo genuinamente brasileiro,

Acompanhem nas próximas postagens mais sobre a vida e a obra de Heitor Villa-Lobos.

Parceiro: Casa da Musika

Referências:

BUENO, Roberto. Pedagogia da Música - Vol. 1. Keybord Editora Musical LTDA. Jundiaí, 2011

SILVA, Francisco Pereira da. Villa-Lobos. Ed. Três. São Paulo, 1974

Grandes Compositores da Música Clássica: Villa-Lobos. Abril Coleções. São Paulo, 2009

Antônio Carlos Gomes, José Pablo Moncayo, Heitor Villa-Lobos, Alberto Ginastera: Royal Philharmonic Orchestra. Mediasat Group S.A.: texto e documentação Eduardo Rincón: tradução Eliana Rocha. Publifolha. São Paulo 2005 (Coleção Folha de Música Clássica)